segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Jung e Arte

"Arte é a expressão mais pura que há para a demonstração do inconsciente de cada um. É a liberdade de expressão, é sensibilidade, criatividade, é vida" (Jung, 1920).

Bem, falar sobre o pensamento "junguiano" ou da teoria "junguiana" quase que somos obrigados a nos remeter à vida de Jung, visto que toda consideração teórica é a posteriori - isto é, primeiro vivemos e depois "teorizamos". Assim sendo eu gostaria de fazer um pequeno apanhado biográfico para percebermos a relação entre "a psicologia junguiana" e o "fazer artístico" ou a "Terapia em forma de arte".

A eficiência do uso terapêutico da arte, está no fato de ser uma expressão da capacidade de "auto-regulação" ou de "auto-cura" da alma. Para Jung a arte em si não são "manifestações" neuróticas da humanidade nem forma de sublimação de uma neurose. Pelo contrario, é justamente a ausência da arte e da religião na vida de uma pessoa um fator importante no desenvolvimento e agravamento das neuroses.

A importância da Arte e da Religião está no fato de serem expressões simbólicas da psique. Para isso ficar mais claro devemos dar um pouco de atenção ao modelo junguiano "funcionamento" da psique.

Para Jung, a psique é formada pela consciência e pelo inconsciente (sendo que o inconsciente possui tanto características pessoais quanto impessoais ou coletivas - que Jung dividiu em pessoal e coletivo). A psique é sistema energético relativamente fechado, caracterizado pela autonomia e pelo movimento constante e dinâmico da energia psíquica entre suas instancias.

No sistema psíquico é imperativo que haja um equilíbrio dinâmico entre o inconsciente e a consciência. O desequilíbrio energético é sempre compensado de alguma forma na busca do equilíbrio. Essas formas de compensação podem ser produções artísticas, sonhos, ou mesmo os sintomas neuróticos. O que chamamos de "neurose" ou mesmo na psicose é quando o equilíbrio fica comprometido, ou seja, quando as tentativas de re-equilibrar o sistema psíquico falham. Geralmente, essa falha ocorre pelo distanciamento entre a consciência e o inconsciente, onde a consciência assume uma atitude "unilateral", ou seja, a relação excessivamente direcionada para o que é "externo" em detrimento ao inconsciente, ou seja do mundo interior. Os sintomas estão ali indicando o caminho. Indicando onde e o que precisa mudado para reorganizar ou re-equilibrar o sistema psíquico.

A forma natural da busca de equilíbrio psíquico ocorre por meio dos símbolos, que permeiam toda a relação psíquica. Os símbolos são os responsáveis pelo processo de transformação ou de passagem da energia psíquica entre inconsciente e a consciência - distribuindo-a de forma a "levá-la à atividade útil". Por isso sempre que falamos em produções do inconsciente - sejam elas sonhos, produções artísticas, sintomas - falamos de seu significado simbólico. Os símbolos são uma forma de acessar o inconsciente.

Para isso ficar mais claro devemos entender um pouco sobre o significado de símbolo para compreendermos nosso contexto. A palavra símbolo tem sua origem no termo grego "symbolon" que significa marca, sinal de reconhecimento, contra-senha que está relacionado ao verbo grego symbállein que é colocar junto, fazer coincidir, juntar. O termo símbolo exprime a união de iguais que foram separados e que ao se encontrarem, se reconhecem tornando-se um.
A função psíquica do símbolo é semelhante à expressa historicamente na cultura: reconhecer e unir. Assim o símbolo é uma ponte que aproxima o inconsciente e a consciência. Igualmente a uma ponte o símbolo possui um lado que fala a consciência e um lado que repousa no inconsciente, por isso um símbolo nunca é totalmente racional, dessa forma, não se pode racionalizá-lo dizendo "Este símbolo significa isso ou aquilo". Quando se atribui um único significado ao "símbolo", ele se torna um sinal, algo próprio da consciência. A diferença entre símbolo e sinal está no fato de que "Um sinal sempre aponta para uma idéia consciente(...) Um sinal é sempre menos do que a coisa que quer significar, e um símbolo é sempre mais do que podemos entender a primeira vista. Por isso não nos detemos diante de um sinal, mas vamos até o objetivo para o qual aponta; no caso do símbolo, porém, nós paramos porque ele promete sempre mais do que revela." Os símbolos surgem espontaneamente do inconsciente.

Todo símbolo depende de quem o vivencia, o que é simbólico para um para outro pode ser algo desprezível. Por isso, via de regra, não cabe a nós julgar o que é simbólica para outra pessoa. Até mesmo alguns símbolos que são "universais", isto é, estão presentes em quase todas as culturas devem ser compreendidos "símbolos relativamente fixos". Pois não se pode dizer como esse símbolo está sendo utilizado por essa psique. Jung diz que dizia a seus alunos "estudem tudo sobre simbolismo, e esqueçam na frente do seu cliente".

Os símbolos podem ser pessoas, lembranças, objetos ou situações que num determinado momento possibilitam mudanças de atitude da consciência frente ao inconsciente. A vivência dos símbolos dá um novo colorido a vida. Segundo Neumann, "Na vida simbólica, o ego não toma um conteúdo, mediante o lado racional da consciência, a fim de analisa-lo (...) mas em vez disso, a totalidade da psique se expõe ao efeito do símbolo e se deixa ´co-mover´ por ele. Essa permeabilidade afeta toda a psique e não unicamente a consciência." Assim, o homem vive no fascínio contínuo da descoberta, pois nada é simplesmente isto ou aquilo. Nada é banal.

A psicoterapia ou análise busca a harmonia entre o inconsciente e a consciência. Ou seja, a psicoterapia em si só é eficaz quando se torna símbolo ou simbólica para o cliente. Acontece que geralmente nesse tornar-se símbolo ou nessa busca "desesperada" pelo equilíbrio surge na terapia o problema da transferência. Para Jung, a transferência é uma expressão do apego à possibilidade da mudança de atitude da consciência. Muitas vezes a transferência é o que "lentifica" ou mesmo atrapalha o processo de transformação da personalidade, ou seja, a psicoterapia, por gerar uma certa dependência com a figura do psicoterapeuta. Visto por este aspecto, o "fazer artístico" confere autonomia ao individuo - pois a responsabilidade e o potencial para a mudança de atitude estão nele mesmo, sem criar a dependência do psicoterapeuta. Atividade criação e transformação dos materiais é simbolicamente a transformação da própria realidade psíquica.

A arte é uma agente de cura quando permite que o indivíduo reencontre os seus símbolos. Ou, em outras palavras, quando a arte se torna o símbolo mediador, ou função transcendente, para o indivíduo - se tornando a ponte entre o inconsciente e a consciência. Permitindo o processo de reequilíbrio psíquico e, mais, o restabelecimento da vida simbólica desse indivíduo, possibilitando a integração e assimilação dos símbolos, fornecendo a energia necessária ao ego, para que possa se diferenciar tanto do que lhe imposto socialmente quanto dos conteúdos inconscientes - como os complexos e arquétipos.

Jung costumava usar uma citação alquímica que dizia "Ars Totum Requirit Hominem" - que é "A arte exige o homem inteiro". Originalmente, essa "arte" referia-se à Alquimia, mas a implicação dela vai além, a "arte" é tanto a própria psicoterapia - que exige o terapeuta inteiro - quanto à própria vida. A psicoterapia, a arte e religião são formas da alma buscar e se fazer total ou inteira através da integração dos símbolos. Uma outra importante citação alquímica utilizada por Jung dizia "Habentibus symbolum facilis est transitus" - "Tendo o símbolo a travessia é fácil". Com a vivência e simbolização da vida a travessia é fácil. conseguimos passar pelos momentos tristes e felizes sem perdermos o encanto pela vida.

3 comentários:

Luiz disse...

Rapaz!Aqui é o Luiz, do Flickr.Não sabia do blog e nem de que vc curtia Jung.Ainda que trabalhe no campo da neurologia,eu fiz especialização em teoria junguiana voltada a técnicas corporais.
Vale vc ler as cartas do Jung,editadas em 3 volumes pela Vozes.Além de teoria e prática clínica,mostra como ele explicava seu ponto de vista a admiradores que não eram da aéra da psiquiatria ou da psicologia.
Abraço!

FadinhaRita Artesanatos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriela disse...

Por favor...faço psicologia e estou fazendo meu Tcc voltado para arteterapia com base na abordagem junguiana..estou precisando de bibliografias....Gostaria de saber se por acaso você teria algumas bibliografias para me indicar.

Grata pela atenção!!
Gaby!